Crucifies my enemies....

quinta-feira, dezembro 11, 2003

Sabe-se que a burrice é um charme. A ostentação da própria estupidez é uma bijuteria que os candidatos a charmosos ostentam em público para conquistar admiração e notoriedade. Um caso que tornou-se clássico desse comportamento foi um cantor pimba (nem sei quem foi; são todos iguais mesmo...) que, numa entrevista, mandou a seguinte patacoada:

Reporter: Você gosta de ler?
Pimba: Sim, eu devoro livros.
Repórter: Qual foi o último livro que leu?
Pimba: Eu li aquele... Bestseller.
Repórter: Mas, qual best seller?
Pimba: O próprio. Chama-se Bestseller.

O sintomático é que o próprio pimba contou este caso, achando muito engraçado o facto de o repórter ter, involuntariamente, desmascarado sua burrice. O pimba, se num primeiro momento envergonhou-se da sua falta de cultura ao ponto de mentir que gostava de ler, logo orgulhava-se da sua burrice e ainda ilustrava sua estupidez contando esta tentativa frustrada de mostrar-se culto. Passou a ostentar em público sua asneira como se fosse um troféu. Ser burro é um requinte.

Sabe-se também que cantores pimba são paradigmas sujeitos bem sucedidos na vida. É um caminho natural concluir que sua áurea de estupidez está diretamente relacionada ao sucesso. O caminho da fama estaria mais próximo das pessoas de poucas luzes. Quanto menos culto, melhor.

Contudo, ironicamente, o facto é que muitas pessoas ainda acham que o charmoso é ser inteligente. O problema era que, para ser inteligente, era necessário dedicar a vida inteira aos estudos. Fazendo isso, não sobraria tempo para exibir-se em sociedade e conquistar a fama - equivocada, lembrem-se - de charmoso.

Mas a necessidade vira-nos do avesso, se preciso. Sistematizaram-se alguns procedimentos para que o estúpido parecesse bastante inteligente, com menos riscos de cometer gafes como a do pimba citado. Um procedimento bastante usado é o seguinte:

Numa conversa, para conferir autoridade a qualquer baboseira que diga, cite um filósofo qualquer e afirme que a frase é dele. Isso pode ser feito, de forma preventiva, no começo da frase. Se você tem a opinião que, por exemplo, ninguém é de ninguém, pode começar assim:

- "Segundo Kierkegaard, em seu estudo sobre os aspectos coercitivos das relações humanas, ninguém é de ninguém, etc, etc.

Quando a conversa é travada com alguém razoavelmente culto, o ideal é inventar o nome e dizer que ele foi um importante filósofo do século XVII.

- Segundo Thomas Friedkin Flanger, o famoso filósofo do século XVII... já leu alguma coisa dele?

- Já ouvi falar.

- Ele é muito bom. Segundo Flanger, em seu estudo sobre os aspectos coercitivos das relações humanas, ninguém é de ninguém, etc, etc...

Dificilmente a pessoa vai querer se aprofundar e inquirir sobre o pretenso filósofo, pois estará sentindo-se inferior irá envergonhar-se de admitir que nunca ouviu falar do ilustre pensador do século XVII, Thomas Friedkin Flanger.

O pressuposto desse comportamento é que o ouvinte também é um estúpido que acredita que a inteligência é um charme. Se quiserem massacrá-lo, basta prosseguir com várias citações de outros filósofos que nunca existiram. Mas convém diversificar as referências, e citar também pequenos trechos de Dostoiévski, Sartre, Herman Hesse ou qualquer escritor de qualquer época. Não é necessário ter lido nenhum e o trecho pode ser inventado. O importante é a pose de autoridade que a referência suscita no interlocutor.

- Dostoiévski também tem um longo ensaio explicando os subterrâneos da mente conturbada do seu personagem que defendia a idéia de que ninguém é de ninguém, etc, etc.

Outra recomendação é nunca concordar com tudo o que seu interlocutor diz. Isso o fará pensar que tu estás atento e possuis espírito crítico. Mesmo se ambos tiverem certeza absoluta que determinada afirmação é correcta, na terceira negativa brotará a semente da insegurança e a certeza do teu interlocutor estará abalada, seja lá qual assunto estiver em discussão. Isso torna-se um trunfo precioso, pois se o candidato a charmoso oferecer o benefício da dúvida ao interlocutor, este irá sentir-se grato e vê-se obrigado a confirmar, por delicadeza, qualquer estupidez que o charmoso vier a dizer. E isso, feito em público, acredita-se, confere tremendo charme ao candidato. Por isso, no final da frase anterior já o alcunhamos de "charmoso", e não "candidato a charmoso". Não se deve esquecer, contudo, que também nas negativas é importante ter um nome de peso para conferir autoridade nas afirmações.

- Segundo Klaus Jefferson Smegman, etc, etc...

Ps. Porém, como já foi explicitado, todas esses procedimentos são desaconselháveis para quem quer ser charmoso, pois está provado que o charme está na burrice.

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